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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Uso de 'kit Covid', sem eficácia comprovada gera confronto entre médicos



A pandemia do novo coronavírus despertou um confronto entre médicos. De um lado os que defendem o tratamento de casos iniciais da Covid-19 com remédios sem comprovação de eficácia, como a cloroquina, a hidroxicloroquina associada ou não à azitromicina, a ivermectina, além de vitaminas, no que já é chamado de "kit Covid". Do outro, profissionais que alegam não haver comprovação cientifica das medicações.

A polarização tem se acirrado com a defesa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que insiste no uso da hidroxicloroquina, antes e depois de divulgar na terça (7) que está com Covid-19.

Não existe medicamento com eficácia comprovada em nenhuma fase da doença do novo coronavírus, que já infectou mais de 12 milhões de pessoas no mundo.

A cidade de Florianópolis (SC) é o retrato da polarização em torno do "kit Covid". Circulam na cidade dois manifestos médicos: um com 210 assinaturas de profissionais pedindo que os medicamentos sem eficácia comprovada sejam prescritos nas fases iniciais da doença, e outro, com 680 nomes (370 de SC e 310 de outros estados), não recomendando o uso das terapias na infecção pelo novo coronavírus.

O grupo favorável ao kit reconhece que não existem fortes evidências científicas sobre benefícios do tratamento precoce. "Mas esse momento exige que façamos o tratamento conforme o que temos de evidências disponíveis", diz a carta em defesa do uso das medicações, que foi entregue ao governo do estado.

Já o grupo contrário, que tem entre os signatários associações de bioética, de virologia e de saúde coletiva, alerta que, além da falta de comprovação na Covid, o uso da hidroxicloroquina traz riscos de arritmias e parada cardíaca.

Lembra também que cerca de 80% das pessoas com a doença terão apenas sintomas leves e moderados, independentemente do tratamento prescrito no início da doença. A ideia do grupo é torná-lo um movimento nacional de resistência ao uso de terapias sem evidência durante a pandemia.

Após ser pressionado pelo grupo favorável ao "kit Covid" para tornar obrigatório o tratamento, o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (DEM), alinhado com a decisão do CFM (Conselho Federal de Medicina), decidiu que os médicos do município terão autonomia na prescrição.

Segundo o infectologista Filipe Perini, que faz parte do comitê de enfrentamento à pandemia na capital catarinense, as únicas medidas comprovadamente eficazes são aquelas baseadas em testagem, identificação precoce dos infectados, isolamento e monitoramento deles, além de uma boa estrutura hospitalar para os casos graves.

"É a receita que tem funcionado no mundo todo. Se a gente tem pouco recurso, esse é o lugar que tem que colocar, não em medicações que não têm clareza de benefício e com potencial risco. Mesmo que seja barata [a cloroquina], não é só isso. São recursos humanos envolvidos, tempo, logística", diz Perini.

Para ele, ao insistir na direção contrária das evidências, Bolsonaro acirra a tensão entre os médicos, pressiona gestores públicos e confunde a população.

"Será que ele está bem porque usou cloroquina ou porque 80% das pessoas vão ficar bem mesmo?", questiona.

O Ministério da Saúde regulamentou o uso da hidroxicloroquina, mas hospitais como o Albert Einstein (SP) recomendam que os médicos não receitem a medicação. A orientação veio após o FDA (agência americana que regula os fármacos) ter revogado o uso para tratamento da Covid-19.

Segundo Perini, o negacionismo das evidências desestabiliza os estados e municípios que resistem em não adotar tratamentos não comprovados e, ao mesmo tempo, estimula outros a distribuir medicamentos até para uma suposta prevenção da doença. "É a extrapolação da extrapolação."

Jurandir Frutuoso, secretário executivo do Conass (Conselho Nacional de Secretários da Saúde), diz que, desde o início da pandemia, esse confronto sobre o uso medicações sem evidência tem preocupado muito os gestores de saúde. "Seu maior dano foi embotar [enfraquecer] a discussão sobre o essencial na pandemia."

Em Balneário Camburiú (SC), a mudança forçada do protocolo de tratamento pela prefeitura, que passou a incluir ivermectina, azitromicina e cloroquina, provocou a saída de pelo menos três médicos do comitê que coordena as ações de combate ao coronavírus na cidade. Eles se opuseram à decisão.

Em Itajaí (SC), a prefeitura começou nesta terça (7) a distribuir ivemerctina -- remédio usado para sarna, piolho e alguns parasitas intestinais, como estrongiloides e oxiúros-- como tratamento precoce e prevenção da Covid. A medida provocou manifestações contrárias de médicos.

O medicamento já custou R$ 4,4 milhões aos cofres públicos em compra emergencial e está sendo distribuído em um centro de eventos da cidade. Em dois dias, 9.000 pessoas haviam recebido a medicação.

Segundo o prefeito Volnei Morastoni (PMDB), uma equipe com cerca de 150 pessoas tem trabalhado todos os dias no preenchimento de cadastros de moradores, avaliações e dispensação do remédio.

"Estamos adotando [a ivermectina] como tratamento profilático para toda a população, já que ele diminui a multiplicação viral", afirma.

Em Porto Alegre (RS), tem circulado um guia de tratamento da Covid, assinado por 18 médicos. No documento que leva o brasão gaúcho, são sugeridos associações de remédios de acordo com a fase da doença. Entre as drogas, estão a hidroxicloroquina, a cloroquina, a azitromicina e ivermectina, além de zinco, vitaminas C e D.

Em resposta, representantes de quatro sociedades médicas gaúchas (infectologia, reumatologia, terapia intensiva e medicina de família) enviaram ofício ao Conselho Regional de Medicina pedindo a apuração de eventual infração ética. "O documento se propõe a mimetizar um documento da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, gerando confusão entre médicos do estado", diz.

Além disso, as entidades apontam como potencial infração ética a recomendação de intervenções terapêuticas que não possuem evidências de eficácia e segurança.

Na capital gaúcha, da lista sugerida pelo grupo, apenas a ivermectina está disponível na rede pública. Mas a orientação da Secretaria Municipal da Saúde é que seja prescrita apenas para tratamento de verminoses. Em nota técnica, a pasta alerta que a droga não tem eficácia comprovada na Covid-19.

"Mas mesmo assim as pessoas prescrevem. A gente tem visto um consumo grande nas nossas farmácias [públicas]. O médico tem autonomia mas tem responsabilidade sobre o que está prescrevendo", afirma o secretário municipal da Saúde, Pablo Stürmer.

Para ele, não é surpresa ver profissionais assumindo condutas sem embasamento científico. "É um desafio mostrar que, às vezes, não fazer nada é proteger o paciente. Há uma cultura de intervir mesmo quando não sabe se funciona", completa.

Estudo liderado pelo cardiologista Luis Claudio Correia e publicado no Journal of Evidence-Basead Health Care, vincudado à Escola Bahiana de Medicina, mostra que há um "efeito pandêmico" por trás dessas decisões médicas irracionais.

Foram ouvidos 370 médicos sobre a prescrição da hidroxicloroquina para Covid-19. A propensão em prescrevê-la foi alta, variou entre 37% a 89%, de acordo com a gravidade da doença.

"Isso representa uma fragilidade cognitiva de nossa sociedade. É utópico querer medicina baseada em evidências sem uma sociedade baseada em evidências. No fundo, as pessoas não são contra ciência, na verdade a sociedade não entende o que é ciência e seu papel do processo de tomada de decisão."

por Cláudia Collucci | Folhapress


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segunda-feira, 23 de março de 2020

Ciro Gomes a Bolsonaro, que estimulou a compra de remédio sem eficácia comprovada: “Criminoso”



Na live em que falou sobre coronavírus e chorou, Ciro Gomes também detonou Bolsonaro, que anunciou a ampliação da produção de cloroquina pelos laboratórios do Exército, ainda que não haja comprovação de sua eficácia no combate à doença pandêmica.

“Deixa de ser estúpido. As pessoas que te ouvem, e são vítimas disso, foram em massa na farmácia comprar. Esse remédio vai faltar para quem tem malária porque tu, Bolsonaro, tá dizendo que tem remédio. Criminoso”, disparou.

O ex-candidato a presidente também criticou o ataque à China feito pelo filho Eduardo Bolsonaro e pelo chanceler Ernesto Araújo.

“Brigar com a China? O único lugar do mundo que tem experiência de sucesso, já resolvida, que pode nos socorrer. Qual é a e explicação? Esse bandido desse filho do Bolsonaro, para atender à propaganda imunda do Trump e dos EUA, fica esculhambando na porta da embaixada da China neste momento, o único país que pode nos ajudar”.

domingo, 22 de março de 2020

Bolsonaro insiste em fazer propaganda de remédio de eficácia não comprovada


"Isso se chama precaução", diz ele sobre a cloroquina, embora não faça nenhum pedido para a população se manter em isolamento social


Jair Bolsonaro voltou às redes sociais para fazer propaganda do uso da cloroquina contra o coronavírus, mesmo sem qualquer evidência científica. Disse ele estar agindo por precaução. Confira seus tweets e reportagem da Reuters:

(Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro disse neste sábado que decidiu em reunião com o ministro da Defesa que o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército vai ampliar a produção da cloroquina, que está sendo testada como tratamento para o novo coronavírus, apesar de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ter informado que não recomenda sua utilização em pacientes infectados ou como forma de prevenção ao Covid-19.
De acordo com nota divulgada pela Anvisa na sexta-feira, não há estudos conclusivos que comprovam o uso de medicamentos que contêm hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento do novo coronavírus, e não há recomendação da agência para a sua utilização.
A Anvisa, inclusive, decidiu enquadrar a hidroxicloroquina e a cloroquina como medicamentos de controle especial para evitar que pessoas que não precisam desses medicamentos provoquem um desabastecimento no mercado.
“A Agência recebeu relatos de que a procura pela hidroxicloroquina aumentou depois que algumas pesquisas indicaram que este produto pode ajudar no tratamento da Covid-19. Apesar de alguns resultados promissores, não há nenhuma conclusão sobre o benefício do medicamento no tratamento do novo coronavírus”, disse a Anvisa.
“Ou seja, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus”, acrescentou a agência.
Apesar da nota da Anvisa, Bolsonaro afirmou neste sábado, em vídeo publicado em suas redes sociais, que acertou com o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o aumento da produção do medicamento pelo Exército, e disse que a Anvisa proibiu na sexta-feira sua exportação.
“Agora pouco, os profissionais do hospital Albert Einstein me informaram que iniciaram o protocolo de pesquisa para avaliar a eficácia da cloroquina nos pacientes com Covid-19. Também agora pouco, me reuni com o senhor ministro da Defesa, onde decidimos que o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército deve imediatamente ampliar a sua produção desse medicamento”, disse Bolsonaro no vídeo, em um tuíte com o título “Hospital Albert Einstein e a possível cura dos pacientes com o Covid-19”.
“Na última sexta-feira, o almirante Antônio Barra, presidente da Anvisa, decidiu que a cloroquina não poderá ser vendida para outros países, afinal, esse medicamente também é usado no Brasil para combater a malária, o lúpus e a artrite”, acrescentou.
Atualmente, não existem vacinas nem tratamentos para a doença respiratória altamente contagiosa Covid-19, por isso os pacientes só podem receber cuidados paliativos por ora.
Nos Estados Unidos, a Universidade de Minnesota iniciou nesta semana um teste para verificar se a hidroxicloroquina pode evitar ou reduzir a severidade do Covid-19.
Separadamente, uma equipe francesa disse que os resultados iniciais de um teste de hidroxicloroquina com 24 pacientes mostrou que 25% dos que receberam o remédio ainda portavam o coronavírus depois de seis dias — a taxa foi de 90% entre os que receberam um placebo.