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domingo, 21 de novembro de 2021

Kremlin: exercícios da OTAN no mar Negro são 'cena triste' e levarão a 'consequências muito graves'

 


Sob cobertura de exercícios da OTAN no mar Negro, a Ucrânia tenta resolver militarmente seus próprios problemas, mas pode criar uma nova catástrofe para toda a Europa, anunciou o porta-voz presidencial russo, Dmitry Peskov.

Em um programa no canal de televisão Rossiya 1 neste domingo (21), Dmitry Peskov disse:

"Muito provavelmente, a Ucrânia está fazendo mais uma tentativa de começar a resolver pela força seu próprio problema. De criar mais uma desgraça para ela mesma e para todos na Europa. É isso que a Ucrânia tenta obter. E está tentando isso, provavelmente, sob cobertura desses mesmos exercícios da OTAN, dos navios da OTAN no mar Negro, dos soldados americanos e britânicos na região, que são cada vez mais. Isso é certamente uma cena triste. Porque isso terá repercussões muito graves".

Numerosas publicações e declarações nos países ocidentais sobre a preparação de uma invasão russa da Ucrânia fazem pensar que não são de excluir provocações e que essa histeria está sendo intensificada artificialmente, segundo o porta-voz.

Para sair da situação tensa nas relações entre Moscou e o Ocidente, a Aliança Atlântica deve cessar suas provocações perto das fronteiras da Rússia.

"Há uma saída. A OTAN deve cessar sua atividade provocativa perto das nossas fronteiras, a OTAN deve parar o avanço de sua infraestrutura, tanto política como militar, rumo a nossas fronteiras. Os Estados Unidos e seus aliados devem parar de concentrar seu punho militar ao longo de nossas fronteiras", enfatizou.

Além disso, segundo suas palavras, "os países da OTAN devem deixar de encher a Ucrânia de armas modernas, inspirando dessa maneira a Ucrânia para ações loucas", acrescentou.
O chanceler russo, Sergei Lavrov, com o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, em Moscou (arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 19.11.2021
Panorama internacional
França e Alemanha condenam publicação de suas cartas pela Rússia por quebrar regras diplomáticas
O porta-voz presidencial ainda acentuou que em um mês o presidente Vladimir Putin poderá restar a única testemunha em exercício dos Acordos de Minsk, enquanto a Alemanha, França e Ucrânia não entendem, ou não querem entender, que esses acordos são "a pedra angular" para resolver o conflito interno ucraniano.
As autoridades ucranianas iniciaram, em abril de 2014, uma operação militar contra as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk, que declararam sua independência após o golpe de Estado no país em fevereiro de 2014. Segundo os dados mais recentes da ONU, cerca de 13 mil pessoas foram vítimas do conflito. A resolução da situação na região está no centro da discussão nas reuniões do grupo de contato de Minsk, que, desde setembro de 2014, já aprovou três documentos reguladores da desescalada do conflito. Porém, mesmo após os acordos sobre cessar-fogo entre os lados, as escaramuças continuam.


domingo, 3 de outubro de 2021

Disputa entre Argélia e Marrocos poderia ter consequências no mercado do gás europeu

 


O Saara Ocidental continua sendo causa de tensões entre a Argélia e Marrocos, uma vez que Rabat se opõe de modo veemente ao apoio de Argel à Frente Polisário, um movimento que busca a independência do Saara Ocidental do Marrocos.

Como resultado, o mercado europeu do gás poderá enfrentar "maior tensão" em um futuro próximo, em meio à disputa entre Argélia e Marrocos, segundo o Financial Times.

Rabat, que cortou os laços com Argel no mês passado, considera o Saara Ocidental a "província do sul" do Marrocos, advertindo contra qualquer ação que veja como uma ameaça à sua integridade territorial.

No final de outubro, a Argélia planeja encerrar um gasoduto-chave que fornece gás argelino ao Marrocos, Espanha e Portugal, também como parte de sua disputa com o reino do norte da África.

As tensões entre as duas nações africanas vêm aumentando desde o início da semana, quando o Tribunal de Justiça da União Europeia anulou a aprovação de acordos agrícolas e de pesca que permitiriam ao Marrocos exportar mercadorias do Saara Ocidental.

Em sua decisão, o supremo tribunal da UE apontou uma deliberação datada de 2016, que havia dito que um acordo comercial só poderia incluir produtos do Saara Ocidental se o povo do território consentisse e se beneficiasse com isso.

Enquanto isso, os preços de futuros do gás natural na Europa bateram um novo recorde na sexta-feira (1º), subindo para quase US$ 1.200 (cerca de R$ 6.439) por mil metros cúbicos, levando os governos a emitirem subsídios de emergência para tentar proteger os consumidores de faturas mais altas.


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Internet: Regulação de redes sociais no Brasil: quais seriam as consequências para usuários e empresas?

 


Com ajuda de Allan Turano, advogado especialista em Direito do Entretenimento e Negócios Digitais, a Sputnik explica os recentes movimentos legislativos do presidente Jair Bolsonaro com o intuito de alterar as regras sobre Internet no Brasil e pondera sobre as consequências, negativas e positivas, que isso pode trazer para os usuários.

Na noite de 6 de setembro deste ano, véspera das manifestações que marcaram o feriado nacional da Independência do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro editou a Medida Provisória nº 1.068/2021 para dispor sobre o uso de redes sociais no Brasil.

Medida Provisória (MP) é um instrumento que permite ao chefe do Executivo legislar, desde que em caso de relevância e urgência. É comum que as MPs entrem em vigor na data da sua própria publicação, com aplicação imediata. Elas permanecem válidas por até 60 dias, prorrogáveis por igual período. Nesse meio tempo, o Congresso Nacional poderá apreciá-la, rejeitando-a ou a convertendo em lei.

A MP em questão alterava a Lei nº 12.965/2014, conhecida como Marco Civil da Internet, que estabelece direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Dentre suas disposições, a MP objetivava restringir as redes sociais de excluir, cancelar ou suspender perfis de usuários ou suas postagens sem justa causa e motivação. Caso esses elementos não fossem demonstrados, as redes sociais estariam sujeitas a sanções que iriam da mera advertência à multa de até 10% do faturamento do grupo econômico no país. Haveria também a possibilidade de serem punidas com a proibição, temporária ou definitiva, de realizarem atividades envolvendo dados pessoais no país.

O ato do presidente foi muito mal recepcionado pela opinião pública, em especial pelo timing da sua criação, já que se deu na véspera da manifestação nacional de apoio ao atual governo. A alegação é de que a MP seria uma tentativa do presidente de dificultar que as redes sociais banissem perfis ou excluíssem conteúdos publicados por seus apoiadores, o que supostamente favoreceria a propagação de discurso de ódio e de fake news. Em tempo recorde, cerca de uma semana após sua edição, o Congresso Nacional rejeitou a matéria, fazendo com que a MP deixasse de vigorar.

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na manifestação do dia 7 de setembro em São Paulo, Brasil
© REUTERS / AMANDA PEROBELLI
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na manifestação do dia 7 de setembro em São Paulo, Brasil

Surpreendentemente, o presidente Jair Bolsonaro apresentou nesta segunda-feira (20) um Projeto de Lei (PL) com o mesmo teor da MP rejeitada. Como se trata de um PL, não haverá eficácia imediata; as normas só passarão a produzir efeitos após debate e alterações pelo Congresso Nacional. Para alguns, isso demonstra resiliência do presidente por não "jogar a toalha" e seguir firme em suas convicções, enquanto para outros a insistência na medida é um "choro de perdedor" e representa certo desprezo pelo processo legislativo democrático.

Fato é que o tema novamente está quente e em pauta no noticiário, o que nos faz refletir: será que a proposta é de todo ruim? Pretendemos contribuir para o debate explicando diferentes visões sobre o tema.

Qual a justificativa e o que muda com a proposta do presidente?

O texto original da MP foi embasado em uma nota conjunta dos Ministérios do Turismo, Ciência, Tecnologia e Inovações e Justiça e Segurança Pública, segundo a qual, na prática, os usuários brasileiros estariam sendo tolhidos de exercer seus direitos constitucionais de liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento. Nesse sentido, a nota afirma que o Marco Civil da Internet "tem se mostrado insuficiente para evitar que um número crescente de brasileiros tenha suas contas ou conteúdos removidos de maneira unilateral, arbitrária e imotivada por provedores de redes sociais".

A solução, portanto, seria alterar o Marco Civil da Internet para incluir regras específicas a respeito de eventual moderação do uso e do conteúdo gerado em redes sociais. Em linhas gerais, a MP dispõe que:

  • As redes sociais deverão fornecer informações claras sobre quaisquer medidas e instrumentos utilizados para eventual moderação de conteúdo.
  • As redes sociais estarão proibidas de adotar critérios de moderação ou limitação do alcance da divulgação de conteúdo que impliquem censura de ordem política, ideológica, científica, artística ou religiosa.
  • A exclusão ou a suspensão, total ou parcial, do perfil do usuário ou da divulgação de conteúdo por ele gerado somente poderá ser realizado com justa causa e motivação.
  • O usuário deverá ser notificado de forma prévia ou concomitante sobre a exclusão ou suspensão, com indicação dos motivos e do fundamento jurídico.
  • Os usuários terão direito a contestar e solicitar a revisão da exclusão ou suspensão por meio de um canal eletrônico de comunicação fornecido e gerido pela própria rede social, que decidirá se restituirá o conteúdo e/ou se restabelecerá a conta ou perfil do usuário.
Página de login do Facebook no celular
© FOTO / AGÊNCIA BRASIL / FERNANDO FRAZÃO
Página de login do Facebook no celular

A proposta do presidente propicia a divulgação de fake news e de discurso de ódio?

Críticos à MP proposta pelo presidente Jair Bolsonaro alegam que as novas regras tornariam mais burocrática e onerosa a moderação de conteúdo pelos provedores de redes sociais. De fato, isso ocorrerá na medida em que obrigações semelhantes às previstas na MP não existiam, de modo que ficava a crivo da própria rede moderar o conteúdo, com fundamento ou não em seus termos de uso e políticas.

No entanto, as alterações promovidas pela MP por si só não fomentam a divulgação de fake news e de conteúdos que promovam discurso de ódio. A possibilidade de exclusão ou suspensão de perfis de usuários e de conteúdo, independentemente de intervenção judicial, segue existindo.

Quem pode se beneficiar da proposta do presidente?

A popularização das redes sociais fez com que muitos negócios antes baseados apenas nos meios físicos se expandissem para o digital. Esse fenômeno criou ainda uma série de novos profissionais, como os influenciadores, infoprodutores, gestores de tráfego, copywriters e ghostwriters, por exemplo. Como reflexo econômico, boa parte dos investimentos em publicidade, antes concentrados nos veículos impressos e na televisão, hoje migraram para a Internet. Perfis em redes sociais podem constituir verdadeiros negócios digitais, geridos com base em plano de negócios e estratégias de marketing, visando à geração de receita.

Baias de computadores na Central SP 156 da Prefeitura de São Paulo (foto de arquivo)
© FOLHAPRESS / JORGE ARAÚJO
Baias de computadores na Central SP 156 da Prefeitura de São Paulo (foto de arquivo)

Nesse sentido, há diversos relatos de influenciadores sobre prejuízos financeiros causados pela moderação de redes na Internet. Tome-se por exemplo o caso envolvendo os artistas Luisa Sonza e Pedro Sampaio. Conforme reportado pela Folha de São Paulo, a dupla acusou a plataforma de hospedagem de vídeos YouTube de "boicote" a um de seus clipes, lançado em maio deste ano. O YouTube teria exercido moderação abusiva sobre conteúdo, ao restringir o alcance do clipe por supostamente conter "excesso de pele" e "conteúdo explícito", o que foi negado pelos artistas.

A proposta, portanto, pode trazer maior segurança e estabilidade para negócios digitais contra decisões arbitrárias de exclusão e suspensão. O debate é saudável e válido.

O que esperar para o futuro?

O PL proposto pelo presidente Jair Bolsonaro será apreciado pela Câmara dos Deputados, que poderá rejeitá-lo, aprová-lo ou implementar mudanças ao seu texto. Nos dois últimos casos, a tramitação segue com a remessa do PL para a análise do Senado Federal. A perspectiva, no entanto, é que dada a atual pressão política e popular o tema não ganhe novos contornos em um futuro próximo.

*Esta matéria foi feita em colaboração de Allan Turano, advogado especialista em Direito do Entretenimento e Negócios Digitais.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik



segunda-feira, 31 de maio de 2021

Analista russo adverte sobre consequências de envelhecimento da tríade nuclear dos EUA

 


O envelhecimento da tríade nuclear dos EUA encerra uma ameaça de conflito em larga escala, por isso, as forças russas e meios de dissuasão nuclear devem estar em elevada prontidão, disse à Sputnik o especialista militar Aleksandr Karpov.

O especialista participou de uma conferência científico-militar em Moscou, na qual apresentou uma comunicação intitulada "Agravamento dos desafios externos e internos da Rússia. Medidas necessárias para os neutralizar".

"O envelhecimento do complexo nuclear americano é um desafio para a Rússia. Seremos obrigados na década de 2020 a manter nossas forças de dissuasão - tanto convencionais quanto nucleares - em alta prontidão. A dimensão de sua aplicação é determinada pelas disposições da doutrina militar e pelos princípios básicos da política da Rússia na área das armas nucleares. Se necessário, e haverá essa necessidade, será preciso desenvolver uma disposição para a projeção preventiva da força, ou seja, uma resposta adequada; também será necessário melhorar o quadro legal para o desenvolvimento destes e de outros documentos", disse Karpov.

Karpov explicou que atualmente a tríade nuclear dos EUA não está nas melhores condições e que as perspectivas futuras são ainda piores.

"A imagem do complexo nuclear dos EUA não é animadora. Quanto aos componentes terrestres, os 400 mísseis balísticos intercontinentais Minuteman III estão em serviço desde 1970, seu recurso de modernização está esgotado, eles devem ser substituídos em 2028", disse Karpov.

Em relação à componente marítima, atualmente a Marinha dos EUA possui 14 submarinos nucleares com mísseis balísticos da classe Ohio, mas os principais submergíveis deverão ser substituídos até 2027.

Maquete de míssil nuclear Minuteman III usado para treinamento de equipes de manutenção de mísseis é visto na base da Força Aérea F. E. Warren, Wyo. ( foto de arquivo)
© AP PHOTO / ROBERT BURNS
Maquete de míssil nuclear Minuteman III usado para treinamento de equipes de manutenção de mísseis é visto na base da Força Aérea F. E. Warren, Wyo. ( foto de arquivo)

"Eles terão 46 anos e o último da série atual terá 30 anos. Como vão ficar os restantes [submarinos] entre os anos 2028 e 2040 é uma questão em aberto", disse ressaltando que apenas a componente aérea dos EUA não suscita preocupação aos americanos.

"Por fim, se pode concluir que os EUA estão no início de um longo ciclo de declínio político-econômico. Se acreditarmos cautelosamente no relatório do Departamento de Energia dos EUA, o período entre os anos 2028-2035 será um período difícil para o potencial nuclear americano. Não há garantias de que os EUA serão capazes de atualizar este potencial a tempo", opinou Karpov.

Além disso, pode-se supor que a elite dos EUA, ao abandonar o domínio global, "vai considerar as armas nucleares no plano prático", concluiu o especialista.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


domingo, 31 de maio de 2020

COVID-19 também afeta o cérebro: quais são as consequências?



Da perda de olfato a acidente vascular cerebral, sintomas da COVID-19 variam muito nos pacientes. Mas dados crescentes que o vírus pode entrar no cérebro têm causado muita apreensão aos neurologistas, alerta o portal científico Trust My Science.


A COVID-19, a doença provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, afeta os indivíduos de diferentes formas, desenvolvendo na maioria das pessoas infectadas uma forma leve a moderada da enfermidade, os pacientes se recuperando sem necessidade de hospitalização.
No entanto, esse nem sempre é o caso, e quando o vírus penetra no cérebro pode causar complicações muito graves e deixar sequelas para o resto da vida.

Danos cerebrais podem ser graves

Foi no início da epidemia em Nova York que a neurologista Jennifer Frontera e seus colegas começaram a notar sintomas neurológicos em pessoas com COVID-19, tais como desmaios, convulsões e derrames.
Outros sintomas neurológicos pareciam mais leves, como a perda do olfato e do paladar. Houve, contudo, quem desenvolvesse encefalite, uma inflamação potencialmente fatal do cérebro.
Esta foi uma descoberta surpreendente para uma doença que se pensava originalmente atacar as vias aéreas, acabando a perda de paladar e olfato adicionada à lista oficial de sintomas da OMS.
Como o novo coronavírus está causando este tipo de sintomas neurológicos. Atacando diretamente os neurônios?
"Se este for o caso, podemos ter que reconsiderar alguns dos tratamentos que estão sendo desenvolvidos para a COVID-19. E, é claro, também precisamos considerar a possibilidade de doenças neurológicas crônicas e de longo prazo em alguns sobreviventes", observou Frontera, citada pelo portal Trust My Science.
Estudo chinês constatou que 5,6% dos pacientes tiveram perda temporária do paladar, enquanto 5,1% tiveram perda temporária do olfato.
Mas relatórios europeus apontam que cerca de 86% experimentaram alguma mudança em sua capacidade de cheirar e 89% tinham uma capacidade reduzida ou distorcida de determinar sabores.

© AFP 2020 / HAIDAR HAMDANI
Homem com máscara e crianças em aeroporto no Iraque (foto de arquivo)
Outros sintomas neurológicos também aparecem, como dores de cabeça e tonturas. Aqueles com doenças mais graves também podem sofrer convulsões e derrames, o mesmo acontecendo em jovens sem historial clínico.
Uma avaliação na China constatou que cerca de 6% das pessoas com doença grave desenvolveram uma patologia que afetou o fornecimento de sangue ao cérebro.
"Temos visto AVC e sangramento no cérebro e um punhado de casos de inflamações e lesões cerebrais", realçou Frontera.
Em algumas doenças, o dano neurológico é um efeito resultante de outros problemas no organismo, não causados por um patógeno que ataque diretamente o sistema nervoso.
Mas na COVID-19 é possível que o vírus entre no cérebro e no sistema nervoso. Note-se que muitos outros vírus que infectam humanos fazem isso, incluindo outros coronavírus.

No cérebro entram coronavírus demais

O canadense Pierre Talbot estuda coronavírus desde os anos 80. Grande parte de seu trabalho tem se concentrado em dois coronavírus conhecidos por infectar humanos: HCoV-OC43 e HCoV-229E, ambos causadores do resfriado comum.
"Sabemos que ambos podem entrar no sistema nervoso e no cérebro. Quando coloco [o OC43] no nariz de ratos, o vírus vai diretamente ao cérebro através do nervo olfativo", afirmou Talbot. E, uma vez atingido o cérebro, "ele se espalha por toda a massa encefálica, matando neurônios e podendo causar encefalite".
Efeitos semelhantes têm sido observados, embora muito raramente, em pessoas infectadas com o coronavírus HCoV-OC43, segundo Talbot.
O coronavírus SARS, que grassou em 2002 e 2003, pareceu agir de forma semelhante. Autópsias realizadas após o fim da epidemia revelaram sua presença em todos os cérebros.

Outras hipóteses

"Também é possível que os sintomas neurológicos sejam causados pela falta de oxigênio", opina por seu turno Sanjay Mukhopadhyay, da Clínica de Cleveland, em Ohio (EUA).
"Isso também pode explicar por que alguns pacientes que sobreviveram à COVID-19, depois de estarem na UTI em suporte de vida, podem apresentar sinais de danos cerebrais", observa Frontera.
resposta imunológica do próprio corpo a uma infecção também pode causar danos ao cérebro: uma reação excessiva do sistema imunológico pode levar ao chamado choque de citocinas, uma ativação extrema das células imunitárias que pode levar a mais inflamação e danos aos órgãos.

© FOTO / ARQUIVO NACIONAL DE MICRORGANISMOS PATOGÊNICOS DA CHINA
Primeira foto do novo coronavírus feita com microscópio eletrônico por cientistas chineses
Mas, com base nas evidências que temos até agora, "é razoável supor que o vírus entre no cérebro", diz o neurologista Avindra Nath, que adianta ser "absolutamente essencial que aprendamos como o vírus ataca o cérebro".
Atualmente, há muitas terapias antivirais em desenvolvimento para a COVID-19 que se concentram nos pulmões. Mas levar medicamentos para o cérebro é um desafio totalmente diferente, por ter de se vencer a barreira hematoencefálica, a camada protetora do cérebro que controla o que pode e o que não pode entrar no cérebro.
"E a maioria dos medicamentos não consegue fazê-lo", observou Nath.

Sequelas duradouras

Se o vírus chegar ao cérebro, pode ter consequências neurológicas a longo prazo.
Sabe-se que alguns vírus podem se esconder em neurônios e se reativar causando doenças mais tarde na vida. Este é o caso do vírus do herpes simples, que permanece nos neurônios e pode se reativar ao longo da vida.
"Não é impossível que o novo coronavírus possa ter o mesmo tipo de persistência no cérebro", afirma Talbot, e que "quando reativado, possa causar doenças neurológicas", acrescentou.

Impacto a longo prazo

Para além disso, alguns efeitos neurológicos podem ter um impacto duradouro nas pessoas que se recuperam da COVID-19. Derrames e convulsões podem causar danos cerebrais com consequências a longo prazo, e muitas pessoas que sofrem tais consequências necessitarão de acompanhamento e reabilitação.
Alguns dos pacientes de Frontera que tiveram que usar respiradores artificiais já estão mostrando sinais de sérios danos cerebrais, ao ponto de "a chance de eles acordarem parecer extremamente baixa", diz ela.
Além de uma perda temporária do olfato e do paladar, a maioria dos efeitos neurológicos parece ocorrer apenas em casos muito graves de COVID-19.
Mas, "mesmo que atinja apenas em uma pequena porcentagem de indivíduos [...], não devemos levar isso de ânimo leve", concluiu Nath.