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sábado, 10 de outubro de 2020

Analistas: Bolsonaro ataca a Lava Jato para neutralizar Sergio Moro e afagar Centrão

 


O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, gerou polêmica ao afirmar que acabou com a Lava Jato, criando um clima de incertezas em Brasília. Para discutir os objetivos da declaração, a Sputnik Brasil ouviu um jurista e um cientista político, que apontaram os limites e as intenções da fala do presidente.



Na quarta-feira (7), durante uma cerimônia em Brasília, o presidente do brasileiro, Jair Bolsonaro, disse que acabou com a Lava Jato "porque não tem mais corrupção no governo". A declaração gerou polêmica e repercutiu na imprensa e nos corredores da política brasileira.

Para Geraldo Tadeu Monteiro, cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além de uma provocação para ganhar holofotes, a declaração de Bolsonaro é um recado direto para o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

"A declaração do presidente Bolsonaro mostra um pendor que ele tem para criar frases de efeito, para provocar os adversários, para provocar comentários, e nesse caso, especialmente, uma tentativa de colocar na defensiva o ex-ministro Sergio Moro. Na verdade, significa que ele [Moro], seu combate, sua ideologia, não são mais necessários no Brasil, uma vez que já se cumpriu a tarefa de acabar com a corrupção", avalia Monteiro em entrevista à Sputnik Brasil.

O professor da UERJ destaca ainda que o "autoelogio" de Bolsonaro tem caráter estritamente político e caracteriza uma tentativa de prejudicar adversários. Além de tentar neutralizar Sergio Moro, ciente de que o ex-juiz é um possível candidato à Presidência em 2022, Monteiro acredita que Bolsonaro também mandou um recado aos aliados do Centrão.

"O alvo também é a base do governo, o próprio Centrão, porque, segundo estatísticas, 40% dos parlamentares ligados ao Centrão respondem a algum tipo de processo na Justiça. Então não só é uma tentativa de neutralizar a importância da figura de Sergio Moro, mas também é uma maneira de acenar em direção à sua própria base parlamentar", afirma.


© AP PHOTO / ERALDO PERES
O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, e o presidente Jair Bolsonaro durante evento em Brasília em 9 de agosto de 2019.

Apesar de ainda haver bastante tempo para as eleições de 2022, o cientista político alerta que Sergio Moro precisa tomar uma decisão a esse respeito em breve, uma vez que corre o risco de começar a perder a influência que conquistou. Monteiro ressalta, porém, que Moro continua sendo uma figura importante e divisiva dentro do bolsonarismo.

"Eu diria que há uma luta interna dentro do campo bolsonarista, entre os lavajatistas, que não necessariamente são fãs incondicionais do presidente Jair Bolsonaro, e os bolsonaristas de raiz, aqueles que chamam o Bolsonaro de mito, que nas redes sociais e no dia-a-dia defendem vivamente o governo dele – hoje nós temos as pesquisas mostrando mais ou menos um terço do eleitorado aprovando o seu governo. Então, há dentro do bolsonarismo sim uma disputa de espaço, uma disputa de poder, e hoje os lavajatistas estão perdendo", aponta o professor da UERJ.

Bolsonaro não tem poder para acabar com a Lava Jato, mas pode miná-la

Marcelo de Carvalho, advogado criminalista e professor de Direito Penal da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), recorda que apesar do voto dado contra a Lava Jato em seu discurso, Bolsonaro não tem poder institucional para encerrar a operação.

"Ele [Bolsonaro] não tem esse poder institucional, o Ministério Público constitucionalmente goza de autonomia. Então, essa operação não pode ser iniciada pelas mãos da Presidência da República e, tampouco, pode ser finalizada", afirma Carvalho em entrevista à Sputnik Brasil.

O advogado criminalista, no entanto, ressalta que Bolsonaro tem outros meios para minar o trabalho da Lava Jato e lembra que o presidente ignorou a lista tríplice do Ministério Público quando indicou o atual procurador-geral da República, Augusto Aras. Para ele, Bolsonaro vem colecionando inimigos dentro da instituição e ainda é cedo para garantir aos seus eleitores que o atual governo é livre de corrupção.

"Para além dessa satisfação moral dos eleitores, o sinal é de que estamos agora alinhando os interesses políticos - e aqui não é uma análise jurídica - com o Centrão. Sabendo que, embora o presidente não tivesse colocado fim à Lava Jato, [ele] vem minando essa operação e outras tantas que pudessem chegar, sobretudo, nos seus familiares e nos seus aliados. A saída de Sergio Moro não foi de graça, não foi algo que veio do acaso", afirma.

Carvalho recorda também que há diversas críticas à atuação do ex-juiz e ex-ministro e ressalta que a própria Lava Jato está envolvida em polêmicas.

"A gente sabe que a corrupção é um câncer da administração pública, ela atravanca a administração pública de todas as formas. Então, todos nós somos anticorrupção, é verdade. Mas, o problema todo é que a forma como se apurou a Lava Jato, muitas das vezes agindo à revelia da lei. Não só a atuação dos procuradores da República, mas sobretudo a atuação daquele que era o juiz que conduzia essa operação em Brasília, estamos falando do ex-juiz Sergio Moro. Foram muitos excessos cometidos que, de fato, são um verdadeiro calcanhar de Aquiles e agora, oportunamente, se levantam esses questionamentos sobre a legalidade da operação", aponta.


© FOLHAPRESS / CHRISTIAN RIZZI /FOTOARENA
Ministro Sergio Moro em evento na sede de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR)

O professor de Direito Penal da UFF salienta o papel da Polícia Federal nas ações desenvolvidas pela Lava Jato e demonstra preocupação com o poder de influência de Bolsonaro sobre a instituição. Para ele, é "muito claro e óbvio", que Bolsonaro busca intervir na Polícia Federal.

"Eu quero crer que no final disso tudo o debate político se mantenha sem que se faça o boicote dessas instituições – a Lava Jato não é uma instituição, mas o Ministério Público é, a Polícia Federal é – essas instituições garantidoras da democracia e fundamentais para termos uma sociedade melhor", conclui.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

'Moderno' e 'versátil': analistas destacam uso do novo blindado Guarani pelo Exército Brasileiro

 


O Exército Brasileiro está preparando seus regimentos para que recebam unidades do novo veículo Guarani, o principal blindado do país. A Sputnik Brasil ouviu dois especialistas da área militar sobre o novo veículo, que apontaram seu papel estratégico e sua introdução na frota do país.

Na última quinta-feira (1º) o 12º Regimento de Cavalaria Mecanizado (12º RC Mec) do Exército Brasileiro recebeu emprestado de outro regimento uma unidade do novo blindado Guarani. Conforme comunicado publicado pelo Exército, o objetivo do empréstimo é realizar treinamentos visando a participação do regimento na Operação Vitória, um exercício militar que será realizado pela 6ª Divisão de Exército no município de Lavras do Sul (RS), no mês de novembro.

Substituto do Urutu, Guarani é considerado um 'blindado moderno'

Roberto Godoy, jornalista e especialista em questões militares, explica que o 1.580 VBTP-MR Guarani é um veículo blindado de seis rodas "muito moderno" e com foco no transporte de tropas, mas com versatilidade capaz de torná-lo apto a exercer outras funções - um tipo de blindado valorizado no mundo inteiro, segundo ele.

"É um blindado de múltiplo emprego muito moderno e pesa pouco mais de 14 toneladas. É um veículo para transporte de tropas, ou seja, funciona fundamentalmente como um veículo transportador de pessoal. Ele [o Guarani] leva soldados armados prontos para entrar em combate em áreas sensíveis, áreas sob fogo. Mas ele também tem versões para transporte de morteiro, lançamento de mísseis, lançamento de foguetes", afirma Godoy. O veículo conta ainda com uma versão que usa uma torre com uma metralhadora .50 ou um canhão de 20 mm controlado remotamente.

O Guarani, segundo Godoy, é hoje o principal projeto do Exército brasileiro na área de veículos blindados, tendo a função principal de dar mobilidade às tropas, com capacidade de transporte de até 11 militares. Por isso mesmo, o veículo tem relevância na estratégia de defesa do país.



REPRODUÇÃO / EXÉRCITO BRASILEIRO
O veículo blindado de transporte de pessoal Guarani, em 11 de outubro de 2011

Pedro Paulo Rezende, também especialista em assuntos militares, recorda que o Guarani substituirá principalmente as unidades do blindado Urutu, em uma parceria ítalo-brasileira com a Iveco, que fabrica o Guarani.

"O Exército brasileiro estabeleceu as especificações, algumas empresas se candidataram e quem melhor se adaptou à proposta foi a Iveco, que é ítalo-brasileira", aponta, em entrevista à Sputnik Brasil. A licitação vencida pela Iveco foi realizada em 2007.




Dezenas de veículos blindados de transporte de pessoal Guarani enfileirados, em 17 de dezembro de 2014

Cerca de 1.580 unidades do blindado foram encomendadas ainda em 2016, sob um contrato de R$ 5,9 bilhões. Segundo os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, estima-se que entre 400 e 600 unidades do Guarani já tenham sido entregues, o que apontaria um ritmo mais lento do que o esperado.

"O ritmo de entrega está muito menor, muito menos acelerado do que seria desejado, porque afinal de contas esse carro vai substituir todos os Urutus e parte dos caminhões que o Exército Brasileiro usa", detalha Rezende

Treinamento e Operação Vitória

Sobre o envio de uma unidade para o treinamento no 12º RC Mec, Godoy explica que se trata de uma iniciativa de adaptação ao veículo, uma vez que o Guarani ainda não foi enviado para todos os regimentos do Exército.

"O que está acontecendo é que nem todos os regimentos de cavalaria mecanizada, nem todas as unidades que vão receber o blindado Guarani, já receberam. Então, como a cadência de entrega, por causa das restrições orçamentárias, falta de dinheiro, foi esticada, a cadência de entrega foi alongada, o que está acontecendo é que as unidades que ainda não receberam estão recebendo por empréstimo de outras unidades para começar a preparar seu pessoal e começar a se familiarizar com o novo blindado", explica Godoy.

A Operação Vitória, exercício militar de rotina agendado para novembro pelo Exército Brasileiro, empregará o uso do veículo, e o treinamento de regimentos que participarão da atividade tornou-se um objetivo. Segundo Godoy, esse é um tipo de operação comum, que serve para "manter a tropa sempre pronta para ser empregada".



O veículo blindado de transporte de pessoal Guarani, em 24 de novembro de 2014

O especialista Pedro Paulo Rezende destaca ainda que a Operação Vitória tem como finalidade desenvolver tática e logística, para garantir uma dinâmica veloz às tropas do Exército Brasileiro.

"Esse exercício não tem uma visão estratégica, tem uma visão logística e tática. É como você vai deslocar os carros em um campo de batalha mais ou menos real - os campos de treinamento brasileiros permitem que você atue de maneira quase real. E também a parte logística, que é como você vai manter e abastecer esse equipamento que está no campo de batalha", afirma Rezende.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Fogo na Amazônia e crise do coronavírus: analistas preveem Brasil isolado



Enquanto as críticas internacionais se acumulam, os líderes brasileiros afirmam não entender. A Sputnik Brasil ouviu analistas para discutir as possíveis consequências do isolamento do Brasil na arena global.

Após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmar que a pandemia o coronavírus não passava de uma "gripezinha" e que ele não corria risco por seu "histórico de atleta", o Brasil tem um dos dos piores registros no combate ao coronavírus. O país é o segundo em todo o mundo com mais casos e mortes de COVID-19, atrás apenas dos Estados Unidos.
A pauta ambiental também traz dores de cabeça ao Palácio do Planalto. O desmatamento cresceu pelo 14º mês consecutivo na Amazônia em julho, Bolsonaro já demitiu o cientista Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por divulgar dados sobre a devastação ambiental e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi gravado afirmando durante a reunião ministerial de 22 de abril que o foco da imprensa na pandemia deveria ser aproveitado para "passar o trator".

© AP PHOTO / LEO CORREA
Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará
O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a imagem nacional está "muito ruim" no exterior. Em videoconferência com empresários em junho, o homem-forte da economia disse não acreditar que o Brasil caminha para uma recessão, mas sim para uma recuperação. Ao contrário de Guedes, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o PIB brasileiro encolherá 9,1% em 2020. O Banco Central também aponta para uma retração, embora menor: 6,4%.
"Estão na verdade disfarçando velhas teses protecionistas contra o Brasil, jogando pecha independentemente de haver embasamento factual ou não", disse Guedes. 
Para os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o que se aproxima é, na realidade, um afastamento dos outros países e empresas do Brasil por conta dos rumos do país. 
O professor de História e Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Roberto Santana ressalta que existe um "consenso" internacional sobre a importância da agenda ambiental e que o Brasil perdeu a importância que tinha na discussão desta pauta.
"O aumento das queimadas na Amazônia, o avanço do garimpo ilegal, do agronegócio sobre a Amazônia, e os ataques, inclusive com assassinatos de populações tradicionais, principalmente povos indígenas. Isso é muito nocivo para a imagem do país no exterior, isso retira o Brasil de uma condição de grande ator nas discussões sobre as questões ambientais internacionais", afirma Santana.
Com esta situação, diz o professor da UERJ, marcas e países já começam a se afastar do Brasil e um dos sintomas deste quadro é o acordo entre União Europeia e Mercosul. Santana ressalta a resistência dos europeus, principalmente da França, em ratificar a parceria por conta das cláusulas ambientas presentes no acordo. 
Representantes da Alemanha, Bélgica, França e Hungria já expressaram reservas sobre o acordo entre os dois blocos. 
"O Brasil já está perdendo muito em matéria de comércio internacional e relações diplomáticas devido a essa condução desastrosa tanto na pauta ambiental quanto no combate ao coronavírus", diz Santana.
O professor da UERJ também afirma que a previsão de Guedes sobre a retomada econômica do país "não tem a menor relação com a realidade" e que a recessão econômica global que acontecerá por consequência da COVID-19 será mais forte no Brasil. 

China já cancelou compra de carne brasileira

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernando Brancoli também acredita que as escolhas políticas de Bolsonaro trarão prejuízo ao país. Para ele, tanto a ausência de políticas públicas quanto a defesa da cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada, mostram a "incapacidade" do governo em lidar com a pandemia. 
O analista também relembra a decisão da China de suspender as importações de determinados frigoríficos brasileiros após o registro do aumento de casos de COVID-19 entre os trabalhadores do setor. 
"A gente pode argumentar que isso pode transbordar para outros pontos, em parte também porque o que tem sido visto, principalmente na Europa, é de que a incapacidade do governo Bolsonaro de lidar com a pandemia é um reflexo maior de uma certa incompetência generalizada do governo", afirma Brancoli.
As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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