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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Novas regras do WhatsApp aumentam nossa 'subserviência' e trazem riscos, dizem especialistas

 


Nova política de privacidade do WhatsApp, que compartilhará dados com o Facebook, aumenta nossa "dependência" e "subserviência" das empresas de tecnologia, disse especialista à Sputnik Brasil.

Nos últimos dias os usuários do WhatsApp foram surpreendidos com uma mensagem sobre as novas regras da plataforma. A partir de 8 de fevereiro o aplicativo obrigatoriamente compartilhará uma série de dados com o Facebook, dono do aplicativo de troca de mensagens. O usuário que não concordar com a medida não conseguirá mais usar o WhatsApp. 

Alcides Peron, pesquisador da USP e especialista em segurança e tecnologia, diz que essa nova política é esperada. 

"Tudo o estão coletando e pedindo, é basicamente o mercado e o método de ação desse tipo de empresas. Companhias como Facebook, Google, Apple e Amazon sobrevivem dessa coleta massiva e comercialização e direcionamento de dados. O mercado deles é a nossa privacidade. São os dados da nossa circulação na cidade, das nossas interações on-line, por exemplo", afirmou.

'Grande poder'

De acordo com o Facebook, as novas condições vão permitir o compartilhamento de informações entre o WhatsApp e aplicativos como Instagram e Messenger. As mensagens, segundo a empresa, continuam encriptadas e seu conteúdo não será repassado.  

Peron afirma que integração de dados confere um "grande poder" ao Facebook e aumenta nossa "subserviência" e "dependência" dessas empresas. 

"Quanto mais se integra, mais dados é possível retirar do usuário. Cada vez mais a gente vai delegando nossa autonomia a uma série de empresas privadas, o que vai ampliando nossa subserviência e dependência desses sistemas. Uma empresa privada concentrando muitos serviços importantes. Não vou dizer que uma rede social é essencial, mas o WhatsApp hoje em dia já é", disse o especialista. 

Em sua plataforma, o WhatsApp diz que informações serão compartilhadas: número de telefone e outros dados que constem no registro (como o nome); informações sobre o telefone, incluindo marca, modelo e a empresa de telefonia móvel; número de IP, que indica a localização da conexão à Internet; grupos que os usuários fazem parte; qualquer pagamento ou transação financeira realizada por meio do WhatsApp; atualizações de status; tempo de uso ou o momento em que ele está online; foto de perfil, entre outros.



© AP PHOTO / OLIVIER MATTHYS
Ativista do movimento Avaaz usa máscara do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, do lado fora da Comissão Europeia. Especialistas se preocupam com uso e destino dos dados compartilhados pelo WhatsApp com Facebook

Idec estuda ação legal

"A justificativa da empresa é melhorar a experiência do usuário. Mas como essa experiência vai ser melhorada? Precisamos cobrar transparência sobre como nossos dados são utilizados, para que são utilizados e por quem", afirmou o especialista. 

Após o anúncio das novas regras, o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) sinalizou que estuda medidas judiciais e administrativas para garantir que o WhatsApp permaneça ativo para usuários que não concordarem com a política de privacidade. 

Mas as mudanças não vão valer para todos os países do mundo. As exceções são a União Europeia e o Reino Unido. Nicolo Zingales, professor da FGV Direito Rio, explica que na Europa os marcos regulatórios do setor deixam claro que o compartilhamento de dados só pode ser obrigatório quando é fundamental para o funcionamento do serviço, o que não é o caso. 

"Há um risco jurídico para o Facebook, por isso a empresa limitou essa política de privacidade para jurisdições fora da União Europeia" disse o professor à Sputnik Brasil. 


 

'Dados muito íntimos'

Para Zingales, a nova política pode sim ser considerada invasão de privacidade. Ele recorda ainda que o WhatsApp "nasceu como um serviço que pretendia não coletar dados e não produzia publicidade".

"Vale ressaltar ainda que, para ter autorização para adquirir o WhatsApp, o Facebook tinha dito que seria quase impossível essa integração. Os metadados podem trazer dados muitos íntimos dos usuários e revelar até mais do que o conteúdo das mensagens", afirmou. 

O professor considera ações como a do Idec positivas e diz, em relação ao Brasil, que algum tipo de medida legal poderia ser tomada com base no Marco Legal da Internet e na Lei Geral de Proteção de Dados.

"A lei europeia é mais detalhada, mas isso não exclui que seja possível aplicar no Brasil o mesmo grau de proteção", avaliou Nicolo Zingales. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Como navios chineses burlam regras de pesca nas águas da América Latina?

 


Analista avalia efeitos da crescente atividade de navios pesqueiros ilegais chineses, cada vez mais presentes nas zonas econômicas exclusivas de países da América Latina.

Estas ações se concentram na pesca ilegal de peixes em águas soberanas da América Latina, um feito que afeta a existência de espécies inteiras na região, avalia ao portal Newsmax Evan Ellis, analista e professor associado do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra dos Estados Unidos.

"A frota de águas profundas da China, que hoje em dia inclui mais de 17 mil navios, entra em uma ampla gama de condutas problemáticas nas águas da América Latina, entre elas a pesca sobrecarregada, a captura deliberada e acidental de espécies protegidas, o uso de redes de arrasto e outras práticas que aceleram o colapso da pesca, a contaminação por plástico e outros resíduos, e a entrada e a pesca não autorizadas em zonas econômicas exclusivas [ZEE] e em zonas marítimas protegidas da região", explicou Ellis.

Segundo o especialista, em 13 de outubro, foi apresentado um estudo sobre as frotas pesqueiras estrangeiras na América Latina no momento em que aproximadamente 340 navios pesqueiros, de maioria chineses, navegavam pela costa do Peru e do Chile, vindos de águas profundas do país asiático.



Mapa da América Latina

Ainda assim, explicou que a demanda chinesa por peixes como o totoaba – devido ao efeito farmacológico semelhante ao da cocaína – praticamente causou sua extinção na zona do mar de Cortés, no México.

Por outro lado, Ellis acusou Pequim de negar de maneira contínua a existência dessas práticas, motivo pela qual se recusa a colocar um fim nelas. Ainda assim, reconheceu que, apesar das violações ao direito internacional "estarem bem documentadas" e existirem vários antecedentes sobre as atividades na costa do Equador e da Argentina, a geografia torna difícil e custoso proteger as águas latino-americanas de incursões chinesas.

"Os navios chineses e de outros países costumam apagar seus transmissores antes de violar as ZEE e as zonas marítimas protegidas, o que faz com que suas incursões ilegais sejam difíceis de provar", apontou.

Além do mais, o especialista salientou que as embarcações chinesas costumam descarregar em barcos de transporte de carga. Graças a este mecanismo, se abastecem de combustível no mar, evitando voltarem a portos latino-americanos, onde seu acesso pode ser controlado.

No final de julho deste ano, o governo do Equador expressou "desconforto" por estas incursões na zona protegida do arquipélago de Galápagos. Ante isto, Pequim "decidiu proibir a pesca de profundidade no oeste da reserva de setembro a novembro deste ano", assegurou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin.

A disputa fez com que até mesmo o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que brindou seu apoio à postura do Equador, convocasse a China a "gerir melhor o meio ambiente".

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik