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quarta-feira, 27 de março de 2024

OURO PARA O BEM DO BRASIL: ‘Garimpo 4.0 é a resposta do novo Brasil aos descaminhos no mercado do ouro’

 



OURO PARA O BEM DO BRASIL





                   Dirceu Frederico Sobrinho (*) 


‘Garimpo 4.0 é a resposta do novo Brasil aos descaminhos no mercado do ouro’

 

Não é de hoje que o garimpo carrega estigma negativo no Brasil, mesmo sendo fonte de riqueza, impostos e distribuição de renda nas parcelas mais modestas da sociedade.


Figuras isoladas, empresas sem procedimentos éticos e fatos de suma gravidade, levam ao setor à passivo de ilegalidades, não raro enveredando pela obscuridade. 


E tal situação não é boa para o setor e muito menos para o país.


O garimpo ilegal sempre foi um grande problema no Brasil, e estima-se que 50% do ouro garimpado entre 2015 e 2020 tenha sido extraído de forma clandestina, longe das leis de regulamentação.


Porém, felizmente, o prognóstico é de mudanças extremamente positivas para o setor. O que já vem tarde, mas ainda em tempo!


Após anos de luta e reclamos de empresários, garimpeiros e setores da sociedade, a I.N. 2.138 da Secretaria da Receita Federal determinou a obrigatoriedade da Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) para compra e venda de ouro em todo o nosso vasto território continental.


Faz mais de três décadas que iniciei uma luta solitária, muitas vezes incompreendida pelo próprio setor, defendendo a formalização das práticas negociais, a identificação dos vendedores, a transparência absoluta no garimpo. Não há outro caminho que não o do estrito respeito às leis modernizantes e saneadoras. É bom para o garimpo, é bom para o Brasil.


O governo federal, enfim, transformou em proposta de lei as tradicionais bandeiras que empunhei como um pregador solitário na imensidão do Brasil mineral.


Não me arrependo! A racionalidade venceu! 


A prática vem sendo adotada desde o dia três de junho passado, e após o início das transações serem autenticadas pela NF-e, o inevitável aconteceu: uma das maiores DTVM´s (Distribuidora de Títulos e Valores Imobiliários) do mercado brasileiro de ouro caiu na malha fina e teve bilhões em ouro e ativos apreendidos em uma operação contra o comércio ilegal daquele metal extraído na Amazônia.


Como empresário ético lamento o procedimento, como brasileiro e contribuinte, rejubilo-me pela aplicação da lei.


O garimpo ilegal é sinônimo de prejuízo financeiro, ambiental e social. A atividade garimpeira é um patrimônio do país, uma indústria poderosa, uma seara onde labutam brasileiras e brasileiros humildes e batalhadores em busca de vida melhor e de opulentar o crescimento social e econômico de nossa terra.


Acabou-se o tempo infame da fraude e do irresponsável incentivo às práticas ilegais. O garimpo do século XXI tem compromisso com as pessoas, com a sustentabilidade, tem responsabilidade social e se rege por uma legislação moderna e descomplicada. O novo garimpo não se confunde com a invasão absurda das reservas de nossos irmãos indígenas. Há que se respeitar nossos povos originários.


Aquelas idéias generosas e, então, difíceis de saírem das cartilhas que financiei do meu bolso, das centenas de palestras que proferi, de uma miríade de debates, entrevistas e reuniões das quais participei ao longo de décadas, foram transformadas em legislação pelo governo do presidente Lula. Valeu a luta!

Agora, além de maior geração de empregos e de mais incentivos ambientais, o novo cenário institucional já leva desenvolvimento e riqueza às regiões de interesse. E por fim, mas não menos importante, a legalidade garante ao garimpeiro condições de trabalho dignas e seguras. 

Posso garantir que somente a regulamentação da atividade pode contribuir para o término de qualquer prática fora da lei.

Já fui chamado de sonhador quando lancei e defendi o que chamo de “Garimpo 4.0”. Trata-se, simplesmente, da entronização de práticas éticas, modernas e dentro do império das leis. Qual o problema? Nenhum! Com uma relação transparente e realista, onde o setor aurífero e as autoridades possam conviver decentemente, sob a égide da legalidade, os garimpeiros e o Brasil ganham muito mais.

Sou apoiador entusiasta da nova legislação proposta ao Congresso Nacional, com várias iniciativas que visam assegurar a promoção da extração e comércio de ouro, de forma justa e sustentável. 

Entre os principais pontos estão:


1.      Regulação das atividades de ouro no Brasil

2.      Certificação e Rastreabilidade

3.      Penalidades mais severas

4.      Estímulo à mineração legal

5.      Proteção dos direitos dos trabalhadores garimpeiros


Ao contrário do que muitos pensam, a palavra regulação não significa acabar com o garimpo, mas sim trazer maior transparência para as operações. A rastreabilidade do ouro garantirá sua origem, desde a extração até o seu destino final.

Essa iniciativa valoriza quem trabalha na legalidade e garante punições aos infratores, como perda de licenças e até mesmo prisão.

Desenvolvi e defendo o conceito do “Garimpo 4.0” e venho me colocando fortemente contra a extração e comércio ilegais do metal. Mesmo após tentativas de criminalização e até ataques injustos de parte da mídia, tenho uma missão e não irei parar de lutar pela regulação de todo o setor no qual milito e ao qual dediquei minha vida.

Sabemos que há muitos que não querem saber de legalidade, seja por causa da burocracia para se conquistar uma concessão de lavra de mineração, ou pelos altos lucros trazidos para quem trabalha de forma ilegal. Ou, mesmo, por evidente cobiça. 

O inimigo é poderoso, mas a sociedade sempre colocou os déspotas de joelhos, e assim o faremos. 

Atuando na contramão da prática gananciosa e destruidora que normalmente associamos ao à atividade, o Garimpo 4.0 é baseado em quatro pilares educacionais: 1) aprender a conhecer; 2) aprender a fazer; 3) aprender a conviver e 4) aprender a ser. 

O novo Brasil que desponta como

Potência Ambiental, tem o dever de educar todos os seus cidadãos envolvidos na cadeia de valor do ouro como aliados ao desenvolvimento social, econômico e ambiental. 

Fui palestrante convidado em importante conferência da revista Forbes, em Funchal, na Ilha da Madeira. Discorri sobre o Brasil, uma potência mineral. Lá estavam representantes das nações lusófonas, desde empresários à ministros, de embaixadores à lideranças políticas. Surpreendi-me com o interesse que nosso país desperta, com o respeito e o carinho que recebemos de outros povos. Em viagem ao Oriente Médio e alguns países africanos, tradicionalmente importantes no setor da mineração, o cenário não foi diferente. Nosso presente é nosso futuro, as possibilidades de negócio, a viva amizade daqueles povos por nosso país, são - verdadeiramente - tocantes. 

O Garimpo 4.0 tem compromisso com a legalidade e responsabilidade ambiental e busca isso através de alianças governamentais, palestras, aulas e oficinas práticas. Apesar do interesse em contribuir com a cadeia de valor do ouro, no Brasil o empresariado ainda é mal-visto pelos olhos daqueles que apenas apontam o dedo, mas não colocam as mãos na massa. 

Há anos alguns setores midiáticos e sociais vêm tentando se aproveitar das conquistas que o Garimpo 4.0 tem tido, como a própria NF-e do Ouro, e para isso tentam descolar do empresariado que investe e gera bilhões ao país e à sociedade.

Retorno, sem cansaço e com a energia renovada após três décadas de pregação: o garimpo legal é fonte poderosa de financiamento para o Brasil economicamente rico, socialmente justo e politicamente democrático com o qual tanto sonhamos.

(*) Dirceu Frederico Sobrinho é empresário dos setores financeiro, mineral e agrícola.


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Especialistas defendem entrada do Brasil em aliança do lítio com Argentina, Bolívia, Chile e México

 


Conhecido por "ouro branco" ou "petróleo branco", o lítio é um minério cuja importância tem crescido nos últimos anos. A América Latina concentra grandes reservas, o que coloca a região em uma posição estratégica. E o Brasil, onde fica nesta corrida do lítio?

O lítio ganhou esse status de mineral do futuro em razão da sua utilização em baterias de aparelhos de celular e, principalmente, de carros elétricos. Essa nova geração automotiva, que se projeta como menos poluente em razão da baixa emissão de CO2, depende do mineral. Segundo estudo da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), ligada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a demanda pelo lítio deve crescer 40 vezes até 2040, em especial por conta das baterias automotivas.
Estudo recente da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), do Serviço Geológico do Brasil (SGB), promoveu uma atualização das reservas de lítio no Brasil. Segundo a pesquisa "Avaliação do Potencial do Lítio no Brasil"o país saltou de 0,5% para 8% das reservas mundiais do minério. Bolívia, Argentina e Chile, que compõem o chamado "Triângulo do Lítio", possuem mais da metade das reservas mundiais. Outro país latino-americano que recentemente descobriu amplas reservas foi o México.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que o Brasil precisa investir em mais pesquisas para se posicionar melhor no mercado internacional de lítio — e ter um mapa mais preciso sobre seu potencial de exploração — e que o país deve buscar uma aliança com Bolívia, Chile, Argentina e México.

CELAC do lítio? OPEP do lítio?

Durante encontro do fórum Perspectivas do Lítio da América Latina, realizado em abril com a presença dos quatro países, a Bolívia anunciou que buscava forjar uma aliança com as nações exploradoras de lítio com o objetivo de industrializar e beneficiar suas populações. O ministro boliviano de Hidrocarbonetos e Energias, Franklin Molina, defende que os 33 países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) devem ser incorporados.
"Deve haver uma CELAC do lítio. Para integrá-la, não deveria ser uma condição ser produtor ou ter reservas de lítio, mas sim ter mercado", disse Molina na ocasião.
O geólogo Daniel Pasin, professor de economia mineral e geologia econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), acredita que o Brasil deve se integrar a essa iniciativa puxada pela Bolívia, que ele classifica de uma espécie de Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) do lítio.

"Esses países vão criar tipo uma OPEP para o lítio para controlar os preços. O Brasil pode entrar nisso", aponta Pasin à Sputnik Brasil.

Globo terrestre com América Latina em destaque (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 11.08.2022
Panorama internacional
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Giorgio Romano Schutte, professor de relações internacionais e economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB), tem uma avaliação parecida. O especialista acredita que a união do Brasil com outros países produtores é fundamental para uma valorização da produção.

"Há uma corrida pelo lítio. As baterias vão ser uma questão-chave, não só pelos carros elétricos. Tem grandes mercados, grandes empresas disputando. Se os países que têm reservas apostarem no 'cada um por si', têm menos poder de barganha. Como tem muita concentração na América do Sul, você pode imaginar uma organização para se posicionar conjuntamente nesse mercado. É muito difícil, mas faz sentido. Faz sentido coordenar para negociar melhor com chineses, europeus, americanos", aponta à Sputnik Brasil.

Diante do aumento das reservas, Schutte defende que o Brasil pense em um modelo de desenvolvimento para a exploração do lítio com o objetivo de aumentar o valor agregado. O pesquisador aponta que é preciso um plano robusto, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e empresas presentes. Não simplesmente fazer um edital.

"Se isso [esse aumento das reservas] se confirmar, há mais um motivo para coordenar essa atuação. Argentina está no Mercosul. Bolívia e Chile são membros plenos [associados]. [...] É uma pauta possível de atuação conjunta", disse Schutte.

As reservas nacionais de lítio

Pensando no estímulo da exploração do lítio, o governo brasileiro decidiu eliminar entraves, retirando as regras que o colocavam na mesma categoria dos minerais e insumos radioativos, cuja exploração precisa passar pela aprovação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Com isso, o Ministério de Minas e Energia avalia que a produção de lítio e derivados poderá receber investimentos de cerca de R$ 15 bilhões até 2030.
Os especialistas avaliam essa medida como positiva. "O lítio não é radioativo igual urânio e tório. Por conta dessa ação do governo, houve uma facilitação para a prospecção e exploração do lítio", aponta Pasin.
O professor da UERJ acredita que isso está diretamente ligado com a expectativa de demanda do lítio. Há uma projeção que aponta que o número de carros elétricos vai saltar de 5 milhões para 35 milhões até 2030. Para Pasin, é importante realizar mais pesquisas sobre os pegmatitos de lítio presentes no território brasileiro para se ter uma dimensão melhor.

"Se revisitarem alguns lugares-chave em que ocorrem esses pegmatitos, pode ser que o Brasil suba em reservas. Esses pegmatitos não foram totalmente avaliados. Tem que fazer um trabalho de pesquisa e avaliação econômica geológica robusto. Ainda pode haver novas descobertas de jazidas de lítio no Brasil", aponta Pasin.

Isso é fundamental para posicionar o Brasil internacionalmente e estimular investimentos no país. Atualmente, apenas três empresas atuam no país, AMG Mineração, Sigma e Companhia Brasileira de Lítio (CBL).

"O Brasil ainda não é um país que se coloca como exportador de lítio, mas tem como ser", afirma o professor da UERJ.

O especialista reforça que o principal meio para se alcançar esse status é o investimento em pesquisa, avaliação econômica geológica e valorização da produção. Entre as possibilidades que podem impulsionar a produção nacional está a de revisitar os rejeitos de lítio que não foram bem aproveitados anteriormente.

Questão ambiental e fortalecimento diplomático

Pasin destaca ainda outros benefícios que uma união com outros países poderia trazer. O fator ambiental é um dos principais.
"[Como o carro elétrico está na moda], dizem que é uma energia limpa porque emite menos CO2. Vendem uma ideia de uma matriz energética mais limpa, mas, por trás disso, toda bateria precisa de elementos que precisam ser explorados na natureza, o que causa um impacto ambiental", destaca.
Ele cita o Salar de Uyuni, na Bolívia, que considera um patrimônio da natureza. "É preciso pensar em explorar de uma maneira sustentável. Explorar detonando com tudo não dá. O lítio tem passado por uma exploração mais devagar mesmo."
Turistas no Salar de Uyuni, rico em lítio, na Bolívia, em 5 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 08.09.2022
Turistas no Salar de Uyuni, rico em lítio, na Bolívia, em 5 de fevereiro de 2022
Uma exploração mais sustentável passa por avanços tecnológicos e uma legislação mais consistente, o que poderia ser articulado em conjunto pelos países da possível aliança do lítio.
Pasin enxerga o lítio como um ponto de partida para uma maior sinergia dos países em termos de cooperação.

"A opção conjunta pode trazer benefícios no fortalecimento até de outras commodities. Começa com o lítio, mas um convênio diplomático pode promover uma sinergia maior entre esses países em outras áreas. O lítio pode ser o gatilho para que acordos bilaterais e multilaterais saiam do papel. Começa no lítio, depois vai para outra coisa", finaliza o pesquisador.

Vista aérea da aldeia Rapkô, dos índios Xikrins, na Terra Indígena Trincheira Bacajá, em São Félix do Xingu, no Pará (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2022
Notícias do Brasil
Amazônia é foco de interesse e de atuação da política externa dos EUA, afirma analista
Fonte Sputinik

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Exército do Brasil: simulação contra grupos de esquerda não tinha 'conotação político-ideológica'

 


Treinamento foi executado em 2020 na cidade de Piquete, no estado de São Paulo, e criou entidades com nomes alusivos a grupos reais em um país fictício chamado "Brasânia". O Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, era chamado de Partido Operário (PO).

Em novembro de 2020, o Exército Brasileiro realizou um exercício intitulado "Mantiqueira" com o Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOpEsp) para ensinar a combater ameaças de esquerda, militantes e organização "marxista", segundo o UOL.
A simulação foi questionada pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), o qual solicitou por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) cópias de pareceres que serviram como fundamento para embasar a ação, realizada em Piquete (SP).
Como resposta, o Exército afirmou que o treinamento ocorreu "sem nenhuma conotação político-ideológica nem de nacionalidade".

Entretanto, o parlamentar interpretou que a resposta "minimizou o caso" e questionou por que não se faz o mesmo visando "uma operação antifascista".
De acordo com a mídia, o treinamento foi pautado em um país fictício chamado "Brasânia".
O presidente Jair Bolsonaro,  participa da cerimônia comemorativa aos 20 anos de criação do Ministério da Defesa e imposição da Ordem do Mérito da Defesa, 10 de junho de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 10.06.2021
Notícias do Brasil
Em evento, Bolsonaro volta a afirmar que 'Exército é a garantia da Constituição' do Brasil (VÍDEO)
Na descrição da história da nação "Brasânia", é possível encontrar vários paralelos com a trajetória brasileira, passando pela Guerrilha do Araguaia, as chamadas "ameaças comunistas", popularizadas nas décadas de 1960 e 1970, e manifestações marcadas pelo uso de mídias sociais.

"As informações constantes na documentação do exercício são meramente fictícias e serviram somente para contextualizar o Exercício de Operações Contra Forças Irregulares do Curso de Forças Especiais, no ano de 2020, sem nenhuma conotação político-ideológica nem de nacionalidade. Desse modo, o exercício visa tão somente aos militares desenvolverem a capacidade em combater Forças Irregulares, de Insurgência, de Guerrilha e/ou grupos armados contra o Estado de Direito", diz um trecho da carta enviada pelo Exército.

No entanto, o site Congresso em Foco, afirma que as características conferidas para montar a simulação eram bastante específicas.
O Exército criou entidades com nomes alusivos a grupos reais que se opõem ao atual governo: o PT se tornou Partido Operário (PO), já o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se tornou Movimento de Luta pela Terra, e os dois seriam apoiados pelo jornal "Mídia Samurai", fazendo referência ao grupo de narrativas independentes Mídia Ninja.

sábado, 13 de novembro de 2021

Por trás do combate às drogas no Brasil existe racismo e imperialismo dos EUA, diz analista




Segundo estudo, Brasil é o país que pior aplica políticas antidrogas entre 30 nações pesquisadas. A Sputnik Brasil entrevistou analista para entender o que leva o país a ocupar um lugar tão baixo no ranking.

De acordo com a pesquisa do Global Drug Policy Index, o Brasil tem a pior política de drogas do mundo, ficando em 30º lugar e atrás de nações como Afeganistão, Uganda e Indonésia.
A pesquisa estabeleceu nota de 0 a 100 para cada país, de acordo com critérios como a existência ou não de pena de morte, descriminalização e financiamento de políticas de redução de danos, segundo a Folha de São Paulo.
Um outro critério avaliado foi a prevalência de assassinatos extrajudiciais por agentes da lei, atividade que constou em vários países, como o México, mas que no Brasil foi considerado endêmico, de acordo com o estudo.

Para ex-diretora do sistema penitenciário do Rio de Janeiro e ex-ouvidora da polícia, a socióloga Julita Lemgruber, citada pela mídia, "a guerra às drogas, no Brasil, tem sido uma desculpa para a polícia matar jovens negros".
O país que somou maior pontuação, ou seja, o lugar do globo onde políticas de drogas têm sido melhor aplicadas foi a Noruega, com 74 pontos. Já o Brasil, último colocado, 26. A média global foi de 48 pontos.
A Sputnik Brasil entrevistou Leonardo Jordão, doutorando e pesquisador do programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP - UNICAMP - PUC-SP) e membro do Núcleo de Estudos Transnacionais da Segurança (NETS) para entender por que o Brasil teve uma pontuação tão baixa e o que é preciso ser mudado nas diretrizes antidrogas do país.
Movimento de usuários de droga na Cracolândia, no centro de São Paulo, 10 de junho de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 13.11.2021
Movimento de usuários de droga na Cracolândia, no centro de São Paulo, 10 de junho de 2021
Para Jordão, o resultado do estudo não foi uma surpresa, uma vez que "a política de drogas no Brasil é historicamente repressiva e punitiva, utilizando, ainda hoje, o modelo exportado pelos EUA na metade do século XX, que é a 'política de guerra às drogas'".
"Interpreto essa política de guerra aos narcóticos como o uso repressivo da força para criminalizar algumas drogas em detrimento de outras."
O especialista salienta que se refere a "algumas drogas" porque a palavra droga envolve não só os narcóticos ilegais como a maconha, cocaína, etc, mas também os remédios ansiolíticos, por exemplo. Entretanto, "esses remédios ou outros que estamos acostumados a pensar como drogas lícitas, eles não têm o mesmo tipo de enfoque político que tem a maconha".

"Nos EUA houve um esforço político e de atores privados, como a indústria farmacêutica, para criminalizar algumas drogas e outras não. As criminalizadas, são as que não é possível ter um controle sobre elas, as que não foram criminalizadas, são as que o governo teria mais chance de controlar e obter lucro em cima", explicou Jordão.

O termo "pacificação", muitas vezes utilizado em algumas operações antidrogas nas favelas do Rio de Janeiro, seria proveniente dessa mesma política, pois o termo foi criado para "realizar um controle sobre a ordem social e esses narcóticos tachados como proibidos, além de criminalizar grupos que estão ligados ao uso e comércio dessas drogas".
"O fato de o Brasil estar no fim desse ranking é resultado de uma política que se aplicou com bastante violência, através do racismo estrutural, a truculência da polícia, o uso da prática estatal para fins que muitas vezes não respeitam os direitos humanos. Essa política se encaixou perfeitamente no intuito dos EUA em criminalizar alguns grupos e algumas drogas no nosso país."
Exército na Rocinha - Sputnik Brasil, 1920, 20.02.2018
Militares fazem operação em favela da zona norte do Rio de Janeiro

Drogas como questão de saúde pública

Países desenvolvidos com alto IDH e PIB também ficaram com uma pontuação baixa na pesquisa da Global Drug Policy Index, e Jordão explica que, nessas nações, assim como na ONU, a política norte-americana foi de grande influência para que o tema seja tratado de forma não adequada.
"Podemos pegar o exemplo de Portugal, que é considerado referência no tratamento de drogas por enxergar o assunto como uma questão de saúde pública, onde todos os narcóticos são descriminalizados desde o início do século XXI, e lá, os números de consumo e de mortes relacionados à violência ou uso de drogas são muito mais baixos que no Brasil", exemplifica.
Para Jordão, é necessário tirar as drogas de uma esfera criminal e levar para esfera de saúde pública e, enquanto isso não for resolvido, pesquisas como essas sempre vão mostrar números baixos e negativos.
"O lucro das indústrias farmacêuticas, que sempre influenciaram essa política de controle, é altíssimo com as drogas que eles ajudaram a definir como sendo os narcóticos permitidos para a comercialização. Portanto, apesar de haver alguns avanços, esses resultados ainda são uma marca dessa política global de controle e criminalização."
O especialista destaca que não só as políticas devem mudar, como também é necessário um debate público e global mais amplo para "recriar e readaptar o conceito de regulação das drogas".

Violência de agentes públicos

Na pesquisa, foi relatado que o Brasil apresenta um alto número de casos de violência por parte de agentes públicos no combate às drogas, sendo um problema tão forte que se tornou "endêmico".
Entretanto, na visão do especialista, essa questão não é endêmica somente ao Brasil "por exemplo, no México, o problema é na mesma intensidade".
"Vale lembrar que o México ocupa um lugar central na geopolítica dos EUA por ser um país vizinho e também por ser um grande distribuidor de drogas ilícitas como a cocaína e, mais recentemente, os derivados da papoula. […] O país sempre foi muito influenciado pela política antidrogas dos EUA."
O especialista relata que em 2007 foi criado um acordo militar, nomeado Iniciativa Mérida, entre Estados Unidos, México e os países da América Central, com o objetivo de combater as ameaças do narcotráfico, crime organizado transnacional e lavagem de dinheiro. O pacto inclui treinamento, equipamentos e inteligência.
Manifestantes exibem um Tio Sam 'diabólico' na fronteira com os EUA, Juarez, México  - Sputnik Brasil, 1920, 04.11.2021
Agentes dos EUA de volta no México: combate a drogas ou interferência na política interna?
"Essa iniciativa fortaleceu a lógica de combate militarizado às drogas e a grupos sociais ligados a ela. Hoje, o cenário mexicano conta com um recorde anual de homicídios que decorrem dessa política de repressão que gera conflitos entre grupos que tentam controlar o mercado ilícito e agentes de segurança."
Mesmo diante desse quadro, o Brasil ainda ficou atrás do México na pesquisa, e para Jordão, é importante nos perguntarmos "se a violência é uma consequência ou uma causa da política de drogas e é possível reduzir essa violência com as políticas atuais".

Na concepção do especialista, no Brasil, a questão é direcionada mais como endêmica "pelo número de homicídios que o país tem e pelo alto índice de encarceramento em massa, que afeta principalmente os indivíduos negros e pobres […]."

"A nossa polícia truculenta é uma herança da época colonial, da ditadura, da forma como a polícia foi pensada para ordenar alguns grupos sociais para proteger certos princípios da Constituição como a propriedade privada acima da vida humana, e também por essa onda conservadora que passou e passa pela corporação, a qual deslegitima os direitos humanos", elucidou o pesquisador.
Manifestantes pintam frase #vidaspretasimportam na avenida Paulista (SP), em prostesto pelo alto índice de assassinatos de pessoas negras no Brasil (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 13.11.2021
Manifestantes pintam frase #vidaspretasimportam na avenida Paulista (SP), em prostesto pelo alto índice de assassinatos de pessoas negras no Brasil (foto de arquivo)



Extermínio negro através de políticas públicas

Jordão salienta que, dentro do grupo mais afetado pela violência executada pelo combate às drogas, a população negra e de periferia é a que mais sofre atentados contra sua própria vida.

"O Atlas da Violência de 2019 mostra que se você for negro no Brasil, você tem 2,6% mais chances de morrer do que uma pessoa branca, e hoje, o encarceramento em massa, também conta com uma grande parcela de pessoas negras."

O pesquisador conta que a Lei das Drogas de 2006 do Brasil estabelece a diferença entre o traficante e o usuário a partir da quantidade de narcótico que foi apreendido com o indivíduo na abordagem policial, contudo, essa abordagem difere de pessoa para pessoa.

"O contexto em que o indivíduo é abordado é reafirmado pelo nosso racismo. Se a pessoa que foi pega com drogas for negra, morador de comunidade periférica, a quantidade de droga, mesmo que seja pequena, pode a levar à prisão ou até à morte. A resposta policial para uma pessoa branca, que esteja também portando narcóticos, é muito diferente."

Para Jordão, o racismo é "uma face da política capitalista de controle de drogas, enquanto não tivermos uma discussão mais ampla acerca das drogas e da violência contra certos corpos, ainda haverá uma maioria negra ou morta ou que ocupa mais lugares no sistema prisional brasileiro".
Ação da polícia no morro da Mineira, Rio de Janeiro (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 13.11.2021
Ação da polícia no morro da Mineira, Rio de Janeiro (foto de arquivo)

Mudança nas abordagem

Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2021, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) em junho, o consumo global de drogas ilícitas não diminuiu, pelo contrário, há até a possibilidade de acréscimo desse consumo.
Em sua concepção, Jordão diz que "as drogas e o seu comércio são uma faceta da economia capitalista, e não é através da criminalização que esse comércio vai parar", complementando que no caso do Brasil, "os benefícios em mudar a abordagem do tema são diversos".
"Se o país descriminalizasse as drogas, as incursões policiais em comunidades de indivíduos negros e periféricos, que são retratados como os perpetuadores do tráfico de drogas, diminuiriam. Também ajudaria a resolver outro problema grave que é o encarceramento em massa, a partir do momento que o tráfico é o crime que leva mais pessoas a serem presas – e muitas delas sem acesso a julgamento. Ao mesmo tempo, colaboraria no tratamento de pessoas que fazem uso problemático de drogas."
O especialista chama atenção também para o "debate científico mais avançado o qual mostra que algumas drogas não são tão nocivas, como a maconha, por exemplo" e que com a legalização o país ganha "não só através de impostos, que são taxados em cima do produto, como vários comércios que seriam abertos com limite de consumo e venda, mas que movimentaria na casa dos bilhões a economia".
Além desses aspectos, seriam levantadas, com a mudança de abordagem, questões como "o racismo e qual papel do Estado e da nossa polícia nesse combate aos narcóticos", assim como uma melhor articulação da política de redução de danos, a qual "deve ser pensada complementarmente a outras políticas mais amplas, uma vez que estudos mostram que ainda há muitas dúvidas sobre como aplicar essas diretrizes".
Um membro da Agência de Repressão às Drogas das Filipinas, PDEA, arranja pacotes de Cloridrato de Metanfetamina, também conhecido como Shabu, que encontraram escondido dentro de um cilindro de aço em uma das maiores remessas de drogas em Manila, Filipinas, na terça-feira, 7 de agosto de 2018 - Sputnik Brasil, 1920, 01.07.2021
Enquanto comércio teve baixa, tráfico de drogas lucrou e foi 'vencedor da pandemia', diz analista
"É necessário mudar a política no combate às drogas, uma vez que ela é racista, tem nome e endereço, pois é concentrada nos negros e nas comunidades de periferia, além de ser imperialista", completou Jordão.

Fonte Sputinik