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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O que significa a retirada dos militares da Amazônia anunciada por Mourão?

 


Aparelhamento de órgãos de fiscalização do desmatamento faz com que a retirada dos militares da Amazônia não represente luz no fim do túnel para o Brasil, segundo especialista ouvida pela Sputnik Brasil.

O vice-presidente Hamilton Mourão anunciou nesta quarta-feira (10) o novo Plano Amazônia 21/22, que vai substituir a ação militar na Amazônia, a chamada Operação Verde Brasil 2, que acaba no dia 30 de abril.

Para Elizabeth Eriko Uema, secretária-executiva da Ascema (Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente), os órgãos de combate ao desmatamento saem enfraquecidos após a atuação dos militares.

"Essa notícia da retirada das Forças Armadas da Amazônia não aponta para nenhuma luz no fim do túnel, uma vez que esse poder volta ao órgão de origem, mas o órgão de origem continua totalmente desaparelhado e sendo desmontado por esse governo", afirmou.

Segundo Uema, órgãos responsáveis tradicionalmente pelo combate ao desmatamento, como o Ibama e Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), não possuem pessoas suficientes para fazer a fiscalização.

"Tem uma coisa extremamente complicada que está acontecendo e pode afetar negativamente todo o processo de combate ao desmatamento, não só na Amazônia como em todo o Brasil, que é o fato de órgãos como o Ibama e o ICMbio estarem hoje quase totalmente aparelhados por policiais militares do estado de São Paulo em cargos de decisão e em cargos estratégicos", disse.

O anúncio de Mourão foi feito durante a 4ª reunião do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), que é presidido pelo vice-presidente.

O chamado "Plano Amazônia 21/22" consiste, segundo o governo, em "quatro eixos de atuação" que visam, sobretudo, a "priorização de áreas onde a ocorrência da ilicitude pode impactar de maneira mais decisiva os resultados da gestão ambiental; aumento da efetividade da fiscalização e o fortalecimento dos órgãos; contenção dos ilícitos em conformidade com a lei; e disponibilização de alternativas socioeconômicas à população dentro do princípio do desenvolvimento sustentável".



© FOLHAPRESS / FUTURA PRESS
O vice-Presidente Hamilton Mourão na coletiva após reunir-se na 4ª Reunião do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL) em Brasília.

Elizabeth Eriko Uema criticou o papel desempenhado por militares durante a vigência da Operação Verde Brasil 2.

"Na medida em que eles [Forças Armadas] puxam para si tal papel e deixam os órgãos especialistas no papel de meros coadjuvantes, na nossa opinião, isso teve um custo muito grande e de certa forma explica a explosão do desmatamento na região amazônica", comentou.

Para a secretária-executiva da Ascema, a fiscalização do desmatamento deve ser feita pelo ICMbio e pelo Ibama.

"Não é função do Exército planejar e atuar na inteligência na questão do desmatamento. Isso é papel dos órgãos ambientais, de órgãos que tem conhecimento, informações e que tem gente especializada que acompanha isso o ano inteiro", completou.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) divulgados nesta quarta-feira (10), as 11 cidades com a maior área de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2019 e julho de 2020 representam 40,5% do que foi perdido de floresta no período.

Somados, os 11 municípios perderam 3.963,75 km² dos 9.780,56 km² perdidos na Amazônia.

São elas: Altamira (PA), São Félix do Xingu (PA), Porto Velho (RO), Lábrea (AM), Novo Progresso (PA), Itaituba (PA), Apuí (AM), Pacajá (PA), Colniza (MT), Portel (PA), Novo Repartimento (PA).

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Papa confronta Bolsonaro e discursa na ONU em defesa da Amazônia e dos indígenas

Papa Francisco e Jair Bolsonaro (Foto: Reuters | Agência Brasil)

"Penso também na perigosa situação da Amazônia e de seus povos indígenas. Eles nos lembram que a crise ambiental está intimamente ligada a uma crise social", afirmou o Papa Francisco em discurso na 75ª Assembleia-Geral ONU. Discurso confronta Jair Bolsonaro, que nega os incêndios na floresta e culpa índios pela devastação


Em pronunciamento na sessão de debates da 75ª Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), o Papa Francisco falou em "perigosa situação" da Amazônia e disse que a emergência ambiental está "intimamente ligada à crise social". No Brasil, a Amazônia perdeu 265.113 km² de vegetação de 2000 e 2018, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O volume corresponde à perda de uma área superior a 32,1 milhões de campos de futebol "Padrão Fifa" com dimensões de 110m x 75m, equivalente a 8.250 metros quadrados (m²). 

"Penso também na perigosa situação da Amazônia e de seus povos indígenas. Eles nos lembram que a crise ambiental está intimamente ligada a uma crise social e que o cuidado com o meio ambiente exige uma aproximação integrada para combater a pobreza e a destruição", afirmou.

"Não devemos deixar para as próximas gerações os problemas das anteriores. Devemos nos perguntar seriamente se existe entre nós a vontade política para mitigar os efeitos negativas da mudança climática, assim como para ajudar as populações mais pobres e vulneráveis, que são as mais afetadas", acrescentou.

De acordo com o IBGE, áreas de pastagem com manejo aumentaram 71,4% na Amazônia, ao passar de 248.794 quilômetros quadrados (km²) para 426.424 km² em 18 anos. As áreas agrícolas na floresta aumentaram de 288%, ao pular de 17.073 km² para 66.350 km².

Apesar de o Papa citar o Acordo de Paris sobre o clima, assinado no fim de 2015, ele afirmou ser preciso "admitir honestamente que, ainda que alguns progressos tenham sido alcançados, a pouca capacidade da comunidade internacional para cumprir suas promessas de cinco anos atrás" evidencia que é necessário evitar discursos "tranquilizantes" e agir para instituições políticas serem "realmente efetivas".

Enquanto o Papa faz o alerta para o desmatamento, Jair Bolsonaro insiste em negar o problema e culpa índios e ONGs. Em discurso pela Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira (22), ele disse haver uma "campanha de desinformação" contra a política ambiental do seu governo. Também voltou a dizer que, no caso da Amazônia, a floresta não pega fogo por ser úmida. 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Fogo na Amazônia e crise do coronavírus: analistas preveem Brasil isolado



Enquanto as críticas internacionais se acumulam, os líderes brasileiros afirmam não entender. A Sputnik Brasil ouviu analistas para discutir as possíveis consequências do isolamento do Brasil na arena global.

Após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmar que a pandemia o coronavírus não passava de uma "gripezinha" e que ele não corria risco por seu "histórico de atleta", o Brasil tem um dos dos piores registros no combate ao coronavírus. O país é o segundo em todo o mundo com mais casos e mortes de COVID-19, atrás apenas dos Estados Unidos.
pauta ambiental também traz dores de cabeça ao Palácio do Planalto. O desmatamento cresceu pelo 14º mês consecutivo na Amazônia em julho, Bolsonaro já demitiu o cientista Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por divulgar dados sobre a devastação ambiental e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi gravado afirmando durante a reunião ministerial de 22 de abril que o foco da imprensa na pandemia deveria ser aproveitado para "passar o trator".

© AP PHOTO / LEO CORREA
Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará
O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a imagem nacional está "muito ruim" no exterior. Em videoconferência com empresários em junho, o homem-forte da economia disse não acreditar que o Brasil caminha para uma recessão, mas sim para uma recuperação. Ao contrário de Guedes, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o PIB brasileiro encolherá 9,1% em 2020. O Banco Central também aponta para uma retração, embora menor: 6,4%.
"Estão na verdade disfarçando velhas teses protecionistas contra o Brasil, jogando pecha independentemente de haver embasamento factual ou não", disse Guedes. 
Para os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o que se aproxima é, na realidade, um afastamento dos outros países e empresas do Brasil por conta dos rumos do país. 
O professor de História e Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Roberto Santana ressalta que existe um "consenso" internacional sobre a importância da agenda ambiental e que o Brasil perdeu a importância que tinha na discussão desta pauta.
"O aumento das queimadas na Amazônia, o avanço do garimpo ilegal, do agronegócio sobre a Amazônia, e os ataques, inclusive com assassinatos de populações tradicionais, principalmente povos indígenas. Isso é muito nocivo para a imagem do país no exterior, isso retira o Brasil de uma condição de grande ator nas discussões sobre as questões ambientais internacionais", afirma Santana.
Com esta situação, diz o professor da UERJ, marcas e países já começam a se afastar do Brasil e um dos sintomas deste quadro é o acordo entre União Europeia e Mercosul. Santana ressalta a resistência dos europeus, principalmente da França, em ratificar a parceria por conta das cláusulas ambientas presentes no acordo. 
Representantes da Alemanha, Bélgica, França e Hungria já expressaram reservas sobre o acordo entre os dois blocos. 
"O Brasil já está perdendo muito em matéria de comércio internacional e relações diplomáticas devido a essa condução desastrosa tanto na pauta ambiental quanto no combate ao coronavírus", diz Santana.
O professor da UERJ também afirma que a previsão de Guedes sobre a retomada econômica do país "não tem a menor relação com a realidade" e que a recessão econômica global que acontecerá por consequência da COVID-19 será mais forte no Brasil. 

China já cancelou compra de carne brasileira

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernando Brancoli também acredita que as escolhas políticas de Bolsonaro trarão prejuízo ao país. Para ele, tanto a ausência de políticas públicas quanto a defesa da cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada, mostram a "incapacidade" do governo em lidar com a pandemia. 
O analista também relembra a decisão da China de suspender as importações de determinados frigoríficos brasileiros após o registro do aumento de casos de COVID-19 entre os trabalhadores do setor. 
"A gente pode argumentar que isso pode transbordar para outros pontos, em parte também porque o que tem sido visto, principalmente na Europa, é de que a incapacidade do governo Bolsonaro de lidar com a pandemia é um reflexo maior de uma certa incompetência generalizada do governo", afirma Brancoli.
As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Presidente da Suzano alerta que desmatamento na Amazônia em 2020 será 'catastrófico'



Presidente da Suzano, Walter Schalka, diz que o governo não cria condições para evitar o desmatamento e prevê "catástrofe" em 2020.

Nesta quinta-feira (20), o presidente-executivo da Suzano, Walter Schalka, declarou acreditar que o desmatamento da Amazônia em 2020 será "muito pior" do que em 2019.
"Vai ser uma catástrofe", disse Schalka à Bloomberg, em Nova York.
De acordo com o CEO da maior produtora de polpa de celulose do mundo, ainda não está claro qual a área desmatada em 2019, e a compilação dos dados pode levar alguns anos para ser concluída.
Schalka ainda criticou o governo Bolsonaro por não garantir o cumprimento das leis brasileiras que impedem o desmatamento e as queimadas em larga escala, que geraram indignação internacional no ano passado.
Para ele, o governo deveria ser mais assertivo nos seus esforços para combater o desmatamento:
"Eu não acho que [o governo] não está forçando para desmatar mais, mas eles certamente não estão criando as condições para evitar [o desmatamento]", disse.
O CEO da Suzano tem feito diversas declarações sobre mudanças climáticas e desigualdade social no Brasil, reportou a Bloomberg.

© FOLHAPRESS / ANDRÉ CRAN
Vista aérea de queimada na Floresta Amazônia, vista à partir da cidade de Porto Velho, capital de Rondônia
Apesar de muitos manifestarem ceticismo acerca da aplicação desse modelo no Brasil, que consiste na capacidade do país capturar carbono e vender créditos para grandes países emissores, Schalka está confiante.
"Queremos monetizar isso", disse o CEO.
Para ele, "não há dúvidas" de que o sistema de créditos de carbono será implementado mais cedo ou mais tarde, criando uma "oportunidade imensa" para o Brasil.
A Suzano Papel e Celulose, baseada em São Paulo, é uma das maiores produtoras de papel do mundo e a líder em produção de polpa de celulose.